segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O caderno de receitas

Se eu tiver uma filha, vou dar meu próprio caderno de receitas para ela. Talvez ela ache uma coisa antiquada, tipo enxoval com bico de crochê. Minha mãe fez um quase completo para mim, tinha toalha, lençol, tapete, tapetinho de banheiro, tapetinho de pôr do lado da cama, tapetinho de telefone. Gente, tinha até caminho-de-mesa. Tudo com bico de crochê.

Aí, eu namorei, terminei, namorei, separei, quase morri, fiquei solteira, galinhei, normalizei, namorei. Quando precisei de uma toalha de mesa, ela me disse, morrendo de vergonha, que meu enxoval estava “incompleto”. Foi a palavra bonita que ela achou para dizer que tinha pego minhas coisas aos poucos: um dia é uma visita, no outro, uma chuva fora de hora que encharca a roupa no varal, sabe como é, vai ficando no uso. Só sobrou uma toalha de rosto – com uma barra de crochê tão grande que dava para fazer outra toalha de rosto com ela.

Claro que eu tenho a toalha de rosto até hoje. Azul, meio desbotada e com uma manchinha de cândida que não sai. Mas é uma toalha de rosto. Todo mundo pega nela. Ela vai para a máquina junto com as toalhas de rosto que não são do enxoval. Isso contamina.

Se fosse um caderno de receitas, seria outra coisa. As páginas ficam com orelhas. Amarelam. Na receita de bolinho de chuva tem uma marca da xícara de café que acompanhou o quitute. Na lista de ingredientes do Bolo Formigueiro está uma científica colher “mais-ou-menos cheia”. A letra vai mudando de acordo com a fome. E os respingos de comida, convenhamos, são um charme. Um caderno de receitas é muito pessoal. Você não deixa as visitas mexerem nele. Você esconde a dica da colher “mais-ou-menos cheia”. Afinal, você levou anos para fazer um caderno de receitas, teve que ralar muita cebola, colar recortes de revista e rótulos de creme de leite e não vai dar assim tão fácil sua dica de arroz soltinho para a primeira filha adolescente que aparecer na frente. Ela que faça o caderno dela, se ela quiser! Essa juventude quer tudo mastigado, valhamedeus!

(texto originalmente publicado no blog Guindaste)

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