Se eu tiver uma filha, vou dar meu próprio caderno de receitas para ela. Talvez ela ache uma coisa antiquada, tipo enxoval com bico de crochê. Minha mãe fez um quase completo para mim, tinha toalha, lençol, tapete, tapetinho de banheiro, tapetinho de pôr do lado da cama, tapetinho de telefone. Gente, tinha até caminho-de-mesa. Tudo com bico de crochê.
Aí, eu namorei, terminei, namorei, separei, quase morri, fiquei solteira, galinhei, normalizei, namorei. Quando precisei de uma toalha de mesa, ela me disse, morrendo de vergonha, que meu enxoval estava “incompleto”. Foi a palavra bonita que ela achou para dizer que tinha pego minhas coisas aos poucos: um dia é uma visita, no outro, uma chuva fora de hora que encharca a roupa no varal, sabe como é, vai ficando no uso. Só sobrou uma toalha de rosto – com uma barra de crochê tão grande que dava para fazer outra toalha de rosto com ela.
Claro que eu tenho a toalha de rosto até hoje. Azul, meio desbotada e com uma manchinha de cândida que não sai. Mas é uma toalha de rosto. Todo mundo pega nela. Ela vai para a máquina junto com as toalhas de rosto que não são do enxoval. Isso contamina.
Se fosse um caderno de receitas, seria outra coisa. As páginas ficam com orelhas. Amarelam. Na receita de bolinho de chuva tem uma marca da xícara de café que acompanhou o quitute. Na lista de ingredientes do Bolo Formigueiro está uma científica colher “mais-ou-menos cheia”. A letra vai mudando de acordo com a fome. E os respingos de comida, convenhamos, são um charme. Um caderno de receitas é muito pessoal. Você não deixa as visitas mexerem nele. Você esconde a dica da colher “mais-ou-menos cheia”. Afinal, você levou anos para fazer um caderno de receitas, teve que ralar muita cebola, colar recortes de revista e rótulos de creme de leite e não vai dar assim tão fácil sua dica de arroz soltinho para a primeira filha adolescente que aparecer na frente. Ela que faça o caderno dela, se ela quiser! Essa juventude quer tudo mastigado, valhamedeus!
(texto originalmente publicado no blog Guindaste)
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Prato de Mãe
– Eu queria o livro de receitas da mamãe.
– O Dona Benta?
– É.
– Ah, é, saiu uma edição nova.
– Eu queria o da mamãe.
– O da mamãe? O velho?
– É.
– Mas se tem um novo... Já sei, é caro.
– Não faço idéia.
– Se não for carão eu compro para você.
– Eu quero o da mamãe.
– Mas, Cá, o da mamãe é velho! Tá usado, meio sujo. Coisas caíram nele.
– Eu quero o dela. Mesmo com as coisas.
– Tem farinha, tem página suja de manteiga... A essa altura, deve ter uma colônia inteira de fungos na receita de Morango Tricolor.
– Eu quero os fungos também.
– Credo, Cá, como você ficou nojenta! Eu não como mais na sua casa.
– Nem eu.
– ?
– Eu quero a comida da mamãe e não tem. Eu vou ao supermercado e compro um monte daquelas frutas e legumes lindos. Eles lustram as maçãs! Meu carrinho parece de comercial de margarina.
– Pérai, mas não eram frutas?
– Ai, caramba, que sejam! Enfim, compro muita mandioquinha. Mandioquinha é a cara da mamãe.
– Acho que é mais batata. Todo dia ela faz batata. Frita, cozida, com manteiga, assada...
– Não, mamãe é uma mandioquinha. Eu comprei um monte de mandioquinha para fazer purê. Fiz um arroz caprichadinho, piquei a cebola igual a mamãe.
– Invisível.
– Invisível. Refoguei carne para rechear o pimentão, lavei um pé de alface bem verdinho e coloquei tudo em vasilhinhas. Ficou lindo. Aí, eu deixei para o jantar, porque belisquei enquanto cozinhava e minha fome tinha ido pro saco. Uma amiga ligou e fomos comer fora. Ficou para o dia seguinte, mas eu almocei no trabalho e cheguei tão cansada em casa que fui dormir sem jantar. No outro dia, teve uma reunião...
– A comida estragou?
– Estragou. Eu abri a geladeira, olhei aquele alface murcho... Tanta gente passando fome, deu vergonha. Fiquei tão triste... Quase chorei, ali, olhando pro alface.
– Era orgânico?
– O que?
– O alface. Era hidropônico?
– Que diferença isso faz?
– Hidropônico dá mais dó. O cara sua para fazer um alface lindo, sem agrotóxicos, sem estragar a camada de ozônio nem derreter as calotas polares e o escambau.
– Acho que era.
– Xííí...
(texto originalmente publicado no blog Guindaste)
– O Dona Benta?
– É.
– Ah, é, saiu uma edição nova.
– Eu queria o da mamãe.
– O da mamãe? O velho?
– É.
– Mas se tem um novo... Já sei, é caro.
– Não faço idéia.
– Se não for carão eu compro para você.
– Eu quero o da mamãe.
– Mas, Cá, o da mamãe é velho! Tá usado, meio sujo. Coisas caíram nele.
– Eu quero o dela. Mesmo com as coisas.
– Tem farinha, tem página suja de manteiga... A essa altura, deve ter uma colônia inteira de fungos na receita de Morango Tricolor.
– Eu quero os fungos também.
– Credo, Cá, como você ficou nojenta! Eu não como mais na sua casa.
– Nem eu.
– ?
– Eu quero a comida da mamãe e não tem. Eu vou ao supermercado e compro um monte daquelas frutas e legumes lindos. Eles lustram as maçãs! Meu carrinho parece de comercial de margarina.
– Pérai, mas não eram frutas?
– Ai, caramba, que sejam! Enfim, compro muita mandioquinha. Mandioquinha é a cara da mamãe.
– Acho que é mais batata. Todo dia ela faz batata. Frita, cozida, com manteiga, assada...
– Não, mamãe é uma mandioquinha. Eu comprei um monte de mandioquinha para fazer purê. Fiz um arroz caprichadinho, piquei a cebola igual a mamãe.
– Invisível.
– Invisível. Refoguei carne para rechear o pimentão, lavei um pé de alface bem verdinho e coloquei tudo em vasilhinhas. Ficou lindo. Aí, eu deixei para o jantar, porque belisquei enquanto cozinhava e minha fome tinha ido pro saco. Uma amiga ligou e fomos comer fora. Ficou para o dia seguinte, mas eu almocei no trabalho e cheguei tão cansada em casa que fui dormir sem jantar. No outro dia, teve uma reunião...
– A comida estragou?
– Estragou. Eu abri a geladeira, olhei aquele alface murcho... Tanta gente passando fome, deu vergonha. Fiquei tão triste... Quase chorei, ali, olhando pro alface.
– Era orgânico?
– O que?
– O alface. Era hidropônico?
– Que diferença isso faz?
– Hidropônico dá mais dó. O cara sua para fazer um alface lindo, sem agrotóxicos, sem estragar a camada de ozônio nem derreter as calotas polares e o escambau.
– Acho que era.
– Xííí...
(texto originalmente publicado no blog Guindaste)
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